quinta-feira, 31 de maio de 2012

A VIDA MERECIDA


Eles vomitam cachorros tagarelando sobre suas esposas
Eles escarram nos rostos de suas mulheres ausentes, e esmurram-nas sem dó
Os meus ouvidos impacientes, eles não cansam de espetar com suas lamentações
Suas queixas contra aquelas que juraram amor,
Façanhas desesperadas e espetaculares fizeram para arrastá-las ao quadriculado de uma casa
De uma cama, de uma alma de esposa, de uma função amorosa...
E agora vomitam cachorros tagarelando contra a sorte que costuraram com os próprios ossos e carne.
E em todo o odioso que me falam
Eu só vejo ardente amor a essas mulheres
Eu só vejo amargo rancor à própria covardia
Cospem como se pudessem afogar com saliva raivosa
A vidinha desgraçada que guerreiam para engendrar
Com a lascívia de quem cunha uma moeda de ouro.
Eles escarram nos rostos ausentes de suas mulheres
Difamando a secreção de seus próprios espíritos frouxos.
Amam-nas em seus desesperos mais másculos!
Amam-nas como a metade de seus corpos!
Amam-nas como seu Deus!
Amam como elas sabem subjugá-los
E todas as suas fragilidades e infatibilidades fingidas
Que os fazem sentir-se tão homens, tão masculinos, tão grandes
São eles tão macios, mesmo esbravejando, entre os dedos de suas fêmeas
Como viver sem seu Deus e seu templo?
Como viver sem a doença que sofisticou com tanta perseverança
E que agora é carne de sua carne, ossos de seus ossos?
Chega a delirar à beira do abismo donde voltam correndo amedrontados ao calor do útero
Como viver sem ela? (E chega-se a viver com ela?)
Mas será preciso aliviar-se, vomitar cachorros loucos
Babar enraivecido e lancetar-se...
É com tanto amor que eles estraçalham suas esposas ausentes!
É com tanta paixão que a menosprezam, que catalogam seus vícios e zombam de suas virtudes!
É com tanto ódio pelo fracasso fatal da humanidade típica de homem casado
Com sua paixão a conta-gotas
Com sua vitalidade de cabo de vassoura
Com a maneirazinha de viver mais vil e fraca que se tornou a ortodoxia imblasfemável
Não podem mais encaram a selva
Porque já não a enxergam
Uma hora trocarão a sacerdotisa do templo
Achando uma mais bela, nova, mais ardente
Mil vezes mais maliciosa
Que aniquile de vez essas faíscas de vida que tanto incomodam
Que destrua de vez esse desconfortável orgulho
Que realize a lobotomia completa
Para que um feliz zumbi
Beije carinhosamente a boca da única vida que ama,
E que merece.


Dante Alligator

quarta-feira, 30 de maio de 2012

SÓ...



Só quem sabe o valor de uma cerveja

É quem senta sozinho, à penumbra

Na mesa de um bar cinzento

E olha para as árvores que murmuram salmos com seus corpos

Sente o vento que sopra verbos inúteis, anônimos, vindos da boca do Nada...

Só quem sabe o sabor de uma bebida

É quem senta sozinho

E mastiga seu tédio com orgulho

Sentindo na língua o adocicado vermelho

Sentindo na boca a secura da solidão abençoada

E sem desejar nada, companhias, mais sexo, mais beijos, mais filosofia

Fica a revirar-se e a saltar no mesmo lugar

Incomodado com a posição desconfortável da própria alma

Procurando acender junto com o cigarro, a faísca divina apagada,

O espírito acuado diante de tantos feitos sujos

E, olhando sempre com um olhar oco os transeuntes

A bicicleta enferrujada e as alparcas podres

Os dentes cariados e os cabelos besuntados

A mulher gorda e charmosa com brincos rasgando a orelha flácida

A esbelta e bela, que vem enlaçada por braços de dois homens que não a desejam

E a olhar tudo, espremendo as pálpebras como pra secretar um sumo

Que umedeça o deserto que roça na pele como um vento de bomba...

E sentindo no corpo todo perfurado, com buracos bem dilatados

Essas asperezas todas como sustos

Sendo que a solidão amplia cada queda de alfinete em trombetas apocalípticas...

Só quem sabe o valor das sensações miúdas que inundam a boca e a mente

É o assolado pelas epifanias esquisitas, o supliciado pelas dores estranhas e inomináveis...

É o visionário cego, aquele cuja a cabeça se infectou aparando acidentalmente a urina dos anjos

Só quem sabe o que é uma mesa flutuante nas sombras de um melancólico bar

Numa noite solta do calendário... navegante no oceano tumultuado dos humores mesclados a lava do vulcão transcendente

Só quem sabe a que se presta infectar os pulmões com fumaça

E a goela com fluidos ardorosos

Só quem sabe a glória inocente e bondosa desses atos

É quem alguma hora os recebeu incorruptíveis,

Das mãos generosas do azar e da sorte

Da Terra, do movimento cósmico dos astros...

Das aleatórias e lógicas construções dos sonhos...


Dante Alligator, 30/05/12


segunda-feira, 21 de maio de 2012

O MITO DOS CADAVERES INFESTADOS DE VERMES


Cadáveres infestados de vermes
Vermes que podem se transformar numa infinidade de espécies de pássaros
Enquanto não se transformam em pássaros, vorazmente devoram o cadáver
Fuçando famintos pelo pão da metamorfose;
Ardentes pela nutrição e a energia que os façam virar pássaros.

(E quantos cadáveres há
Cujos vermes de fogo consomem o carbono
Sem nunca transmutarem-se em pássaros!)

Cantam os pássaros outrora vermes!
Vermes não podem entoar cantos, nem tampouco ouvi-los
Um cadáver não escuta outro cadáver
São os pássaros de um que cantam e os pássaros do outro que escutam
Mas para que teus pássaros escutem os meus pássaros
Será preciso que haja em ti pássaros de uma espécie semelhante
Variação desses pássaros que a ti cantam
Será preciso que esses pássaros ousem cantar com eles
Ou restará a ti a surdez e o enigma desprezível.
Um canto te parecerá loucura
Se não houver em ti alguém e algo que possa ouvi-lo


Ouça como canta a multiplicidade inquieta de pássaros ao meu redor!
E apenas pássaros parentes poderão escutá-los
Muitos cantos cairão no chão e serão pisados
Há tantos pássaros órfãos e sem parentescos
Que solitários choram e gargalham a ouvidos ainda não nascidos
Não é preciso, e talvez nem seja possível que ouças todos os cantos
Todos os pássaros deste cadáver...
Há tantos pássaros órfãos e sem parentescos!
E talvez o canto deles, ás vezes, arranque de ti uma pergunta:
Como poderei ouvir cantos tão estranhos?
Sabe: é preciso ter os pássaros certos.
E se me questionas como se poderá obter os pássaros certos
Aprende que o cadáver deverá ter o pão da metamorfose
A nutrição e a energia que transforme seus vermes nos pássaros certos
Ou resta a ti a surdez e o enigma desprezível
Os cantos te parecerão loucura
Os pássaros certos são os de espécie vizinha que se atrevem a cantar juntos
O mesmo canto estranho.
Mas, se no cadáver não houver os ingredientes certos
Os vermes não se transmutarão nos pássaros certos.
Tudo está nas mãos do acaso.
Do acaso e do voo dos pássaros.
Pois todo o pão da metamorfose é trazido ao cadáver pelos próprios pássaros
É assim que os pássaros geram os bandos e variações de sua própria espécie
Trazem para o cadáver, ás vezes de muito longe, o pão da metamorfose
A nutrição e a energia certa para transformar os vermes nos pássaros de sua espécie
Tropeçamos então no paradoxo deste canto
Que não responde como nasce o primeiro pássaro de uma espécie.

Mas, e se os vermes ao se transformarem em pássaros, forem órfãos por natureza?
Se ao deixar de ser vermes, exatamente por isso, não sejam pássaros de cadáver, pássaros meus
Sejam pássaros órfãos do ar
Que não pertencem a ninguém?
E se os pássaros ao trazerem o pão da metamorfose
Não o deixam no cadáver onde nasceu, mas onde nascerão?
E se esses pássaros rasgam o tempo com suas assas
Escapando do presente, se seus voos unem o passado ao futuro?
Então, quão caduca é a questão da origem das espécie!
Orgia de pássaros!


O QUE FIZERAM DE TI, GAROTO?


Era um garoto, que como eu
Amava os Beatles e os Rolling Stones
Que sabia fazer de uma garrafa seu caduceu
E de versos, chifres de rinoceronte
Livros de diamante eram fórceps de seus olhos.
Hálito alcoilizado e camiseta preta;
Molduras de um humor volátil e negro
Com quem mesmo aprendera as coisas?
Com tudo e com todos...
Com ninguém...
Teu corpo já foi mais magro e mais leve
Teus músculos menos rígidos, mais sensitivos...
Teus cabelos bem mais livres e brincalhões
Como todos os mil fios soltos de tua alma
Como todos os dez mil poros de tua pele...
Que fizeram de ti, garoto?
Já não podes recordar onde estavas...
As agulhas invisíveis suturam ideias de chumbo em teu cérebro!
Que fizerem de tua boca, garoto?
Costuraram vozes de comando e gritos de guerra!
Que fizeram de tuas mãos, garoto?
Derreteram tuas unhas e dedos com o calor de revólveres...
Zombaste do destino inscrito nos acasos que te forjaram
Pois todos nós, olhando para ti, víamos um dragão
Ouvindo nós a tua voz cromada de éter
Sabíamos como videntes que serias a água indomável entre as pedras.
Quão terrível é o nossa época! Quanto horror nesse império da sobrevivência!
Os monstros são caçados antes que nasçam...
As bruxas são condenadas a vender-se como espetáculo...
Lá vai o garoto-dragão, encolhendo, encolhendo...
Sem tanto fogo, sem tanta fúria, sem tanta fera...
Lá vai o garoto sem nome com números gravados na testa
Vem ele marchando, marchando, marchando...
As flores murcham ao melancólico soar de coturnos...
Era um garoto...
Sim, o destino é uma cera mole frente essas máquinas monstruosas!
Fábricas de fatalidades, as usinas trituraram teu mistério...
Máquinas como o Deus do qual não sabes escapar.
O que fizeram contigo, garoto?
O que fizeram com teus passos?
A embriaguez que era o colírio de teus olhos
Raspas com ferocidade dos poros com unhas puritanas
E o que fizeram daquilo que fazias contigo, garoto?

terça-feira, 1 de maio de 2012

NECESSIDADES BÁSICAS?

A expressão “necessidades básicas” é uma abominação, tem o fedor de campos de concentração. Não consigo enxergar “necessidades básicas” num ser humano saudavel; o tal é desejo e não necessidade – desejo que produz necessidade. Ele produz sua fome, sua sede e seu sexo, constroe-os como pode e segundo seus níveis de liberdade. “Necessidades básicas” podem se aplicar a animais, reduzidos ao paroxismo da sobrevivência. E quando a política de Estado e das militâncias esquerdistas usarem essa expressão, levantemos nossas orelhas ao perigo dessa redução ao “animal universal”, preparemos nossos relinchos e coices!

sexta-feira, 30 de março de 2012

BEM AGORA



Bem agora, bem agora... fui arrastado ao liame da vida... ou da morte... ou da alma morta.
Bem agora, quando os cães da angustia me dilaceravam, e eu gemia minha lamuria secreta, e o meu resmungo estrangulado ao destino.
Bem agora, qualquer coisa de acúmulo me salva; qualquer coisa que já existia, desconhecido, vai desbrochando e iluminando um horizonte novo. Por que resmungo? Meus confortos são demolidos. Por que me iro contra o azar? Meus travesseiros estouram, minha casinha ncendeia... E minha reação frente à felicidade destruída não pode ser outra senão dor e sensação de miséria.
Sim, certo. Mas... o que tem sido meu conforto? Conservação, certa segurança, certo equilíbrio, certa harmonia de sentimentos circulares e habituais, todos eles fundamento do meu aconchego. Que outro nome para isso senão: POSSE?

Certa segurança e certo equilíbrio? Muito mais uma segurança certa e um equilíbrio certo - corretos, ferrenhos!
Sim, possuo, logo existo... suponho ter algo. Um amor? Uma companhia? Um corpo? Meu...?! Agarrado com mil braços a essa posse encontro a felicidade fatal. Casa, cama, travesseiros... Mil fios que me amarram a minha posse, e são todos tecidos por teares muito comuns, muito vulgares, muito normais.
Ora, comuns? Vulgares? Normais?... Que tenho eu com esses atributos? Não tenho me refinado? Não tenho tagarelado sobre superações e diferenças? Que tenho com esses atributos? TUDO! Pois, não são minhas emoções e sentimentos todos regulados pelas maquinas deste tempo? Não sou todo um produto das maquinações deste mundo? A moralzinha, as leis, os medos, as fraquezas, os gostos, os olhos, a língua e o gozo dessas regulações, tudo isso está gravado em meus genes! Ora, é ainda o Homem do Trabalho e da Família, que ama e goza e se atira em busca de seus anseios. É ainda o homem produzido para a rentabilidade econômica e para o núcleo familiar que se sacia com suas alegriazinhas libertinas. É o corpo organizado com sua mentezinha padronizada que sente e senta e planeja... E o sonido mais forte que soa dessa máquina emite o gemido por POSSE! COSERVAÇÃO! SOBREVIVÊNCIA!... É o que me dá sossego que amo! É o que me garante o conforto que busco! Eu tenho transpirado gotas de ouro para garantir o homem que esperam de mim. Eu tenho a revolta e a violência da fera para garantir que esse homem não se diluirá jamais. Mas... eis que as máquinas começam a derreter. Cai um raio, um tufão sobre elas. Eis que os órgãos em que eu confio começam a falir... Eu choro... 
Choro como uma criança. 
Choro pelo conforto da mãe, pelos seios cheios de leite ou de sexo. Eu dou grunhidos e me esperneio contra o Azar. Sim, a casa resolveu se desintegrar, deixando-me nu, nu, nu... que vergonha! 
Eu me cubro de vergonha perante os olhos alheios e meus. Desgraçado, miserável... Sim... a culpa nesta hora dá o seu bote e finca o seu veneno... A culpa por ter ruído... nada mais!

A casa cai. Os órgãos vão a falência... Resta a infelicidade e o vestígio na caixa de Pandora; resta esperança. Um anseio pela boa sorte. Uma calma surgindo do cansaço de chorar. Um bater o pó e a certeza de que ainda se poderá possuir tudo outra vez. Sim, a vida continua! Os amigos batem em nossas costas. A vida continua... Caminhamos entre a indiferença e a expectativa de uma nova felicidade, um novo conforto.

Vida?... A Vida continua?...

Bem agora... entendo que a vida ainda nem começou! E que tenho tapado todas a brechas para que ela não adentre em minhas veias. Bem agora, sofro ela, a Vida, lá do outro lado. É de lá que ela me açoita. Todas as minhas energias gastei em construir a muralha que mantenha esse inimigo longe de minha cidadela. Mas... agora que meu céu estrelado se rasgou, e meu chão ruiu... eu vejo a réstia fina do sol da vida... pulsando... longínqua... mas com força suficiente para consumir olhos. Eu vejo um feixe brando atravessando o muro roto...
Bem agora, vejo que minhas alegriazinhas e gozos eram o sintoma de um envelhecimento. Reflexos de um zumbi.
Bem agora, sei que minhas expectativas não podiam ser mais tolas, mais infantis... mais nocivas! Eu queria uma família? Eu queria um trabalho? O galho seco se elastecia estendendo seu dedo enrugado ao calor desses valores fracos? Eu tombava sob o peso do que fizeram de mim, da alma que me fabricaram. Eu tombava e o meu tombo era o meu desejo. Sim, sim... eu queria posses! Não queria? Uma companhia fiel, uma carreira, um conforto, um período de paz no qual eu me encastelasse e me protegesse da odiosa Vida? Livre! Sim, livre de vez da vida! Não!... Claro que não! Sou um jovem sofisticado! Tenho bons livros na estante! Tenho até tido bons pensamentos! Eu tenho dito coisas admiráveis! Até transgrido!... É obvio que eu não sou o homem do trabalho e da família! Eu tenho falado mal contra o casamento! Não! Eu sou um jovem de vida interessante!...

Mas sim... Eis um homem! E isso basta para estar protegido da vida. E isso já é o castelo que tuas mãos enfurecidas quererão manter firme contra os golpes da Vida! O teu amor, o teu corpo, as sensações do teu corpo, os teus sentimentos... o que achas? Que são fenômenos psíquicos? Químicos? Orgânicos? Achas que tem algo em ti que sejas teu, que sejas tu?... Achas que há uma instância onde escolhes teus amores, uma bolha habitada por uma alma livre para se inclinar as suas idolatrias?... Sexo? Dirás tu que existe um sexo e nele tu pendes para o teu prazer e desprazer? Sim, temes... temes derrubar as paredes de tua privacidade. Tens aquele duro e sacro pudor. Achas mesmo que nessa mísera liberdade podes te dar o luxo de suspender o que sabes. Tens para ti que essa dimensão quase mística é o teu paraíso onde explorarás tuas loucuras? Tu tens reduzido a tua loucura a esse íntimo? Quão modesta é tua loucura! Eis aí tu, enamorado, eis aí tu procurando realizar teus anseios de amor... eis aí tu escrevendo as tábuas que legislarão teus amores, tuas esperas... teus gozos... Eis aí tu com tuas sensações agradáveis e desagradáveis... Achas ainda que essa dimensão obscura é o teu jardim secreto? Nele brotam tuas grandes satisfações e carências! O jardim murado que deixa a vida do lado de fora!

Bem agora... a Vida me encara. E o que vejo à sua luz é que todos os meus amores são tremores de um corpo congelado. Um corpo regulado por todas as coações que o tornam útil. Todos os amores desse corpo foram tornados inofensivos, imbecis, fracos! Todos as sensações desse corpo são ortodoxas, e não produzem nenhum furação! São amesquinhadas, apoucadas, apessoalizadas... Eu vejo que meus secretos sentimentos, tão reclusos e emparedados por meus pudores de concreto, não passam de secreções e costumes deste corpo economicamente rentável, politicamente castrado, moralmente correto... impotente para ser o mais!...

Bem agora... meus órgãos falidos... febril... bêbado de dor... Bem agora... infectado por mil corrosivos... o corpo saturado de toda a sua química venenosa... Bem agora, que minha carne não encontra a velha casa, a velha cama e os brancos travesseiros... E parece derreter por sobre os ossos como lava incandescente de febre... eu sinto... certa oscilação... o que está em cinzas são os músculos e nervos que me coagem à carência... à esperança de conforto... O que se encapela e cai no chão é a boca ansiosa pelo seio materno, é o falo penso de paternidade... O que cai como parafusos são articulações que constrangiam-me à fome eterna...
E ali, diante de mim... A Vida solar!... A Vida que pede um corpo outro... um corpo luminoso, desconhecido... não regulado pelas leis da biologia e da física... um corpo espiritual, a carne política, descomunal, paranormal... corpo pleno e universal! Fervilhante de sensações desconhecidas embaladas por dançante alegria... Cujos gozos e amores poderão criar e destruir mundos!... Um corpo que não quer nada mais para si, mas ele todo é um universo, um multiverso... um vulcão e uma tempestade silenciosa...

Fico ali... no entre... caniço ao vento... uma mão chorosa sobre as cinzas de um lado, agonizando por tudo ali cheirar a desgraça... algo ainda quer o pranto amargo, a tristeza da vergonha... (pois o sentimento de vergonha é mais destrutivo e profundo do que a ruína, a vergonha, tão obesa quanto um saco de trilhões de olhos abertos e cheios de dentes!) algo de mim ainda quer o juízo... a culpa... o fardo desgraçado da moral de morte... sim... e a mão tremula surda ante a lama podre no chão...

Mas a outra mão se estica à Vida... e ao seu calor de Deus... Algo quer se esvaziar para se encher dessa luz... algo quer a pobreza no lugar da posse, e aceita atrevido o infinito desafio... quer a alegria! Quer dizer amém à suprema alegria! Vou trocar o conforto pela agonia de um deus criador! Algo quer a leveza da perda para a dança mortal... Vou me desfazer nesse novo corpo!... algo quer sofrer um novo sofrimento... uma angustia que não seja reação a perda e ao azar... mas uma angústia buscada, procurada, caçada aventurosamente... uma angústia bendita que seja o ovo da alegria divina...

Algo quer sofrer a alegria divina, a de criar... e ter nela toda sua justiça e paz.

E vou!...

A Vida... Esse Sol imóvel e impessoal... caudaloso e pacificamente explosivo, escorrendo o mel vital...

E bem agora, bem agora... ah, bem agora! Eu penso... logo...
O Pensamento empalado na Vida, sangrando...

Não é um pensamento buscando consolação, mas um que fareja as energias e os impulsos que me arrebatem, que corta aquela mão medrosa agarrada a velhice e a tristeza, um pensamento que me atira para dentro daquele sagrado coração de fogo – a Vida!

E bem agora, a minha dor torna-se ditosa... torna-se a queimadura horrenda de um corpo imergindo no magma de Deus!

E bem agora... ah... graças! Muitas graças por essa hora!

29/03/2012

segunda-feira, 26 de março de 2012

SALMOS DE ORFEU II




II
E no quadrado estômago da Baleia de Jonas
Repouso esquartejado em minha acolchoada solidão...
Estômago quadrado, paredes tingidas com minha palidez bronzeada,
Esses móveis são ossos externos, os ossos-móveis que mantenho inertes.

Minha audição adestrada pelo silêncio
Sequer agora sabe a sinfonia desastrosa dos carros que me batem a porta;
Contraio os poros...
E o mundo vira éter.

Cai um bloco espesso de sol da minúscula janela.
É esse peso cúbico que esmaga e desperta meu rosto todas as manhãs,
E recheia a pele de leveza
E o Dado-Planeta rola e outra face aparece:

O Dia é um mundo fechado, um mar abarrotado de sensações sozinhas;
Faz brotar as flores de afetos que ele mesmo semeia
E a felicidade do dia é uma que é só dele
E nele, Deus veste um máscara diferente.

O Dia é um cubo
Outro prendendo Deus e o Mundo e suas cores e sons
A Noite não é o tolo fim do Dia;
É outra substância, é uma bolha onde Deus dorme nu e sonâmbulo.

Tenho ouvido oráculos
Como gritos que chagam mancos e borrados
Vindo do longínquo, do longínquo, do longínquo... que mora ao lado
Tenho ouvido com meus ouvidos tecelões
Que escancaram pétalas sobre o canteiro da Noite;
Tenho ouvido a sibila apagada do Deus
Sonâmbulo que pouco diz e muito fere;
Que se chega em respingos no sopro onipotente
E se amálgama com meu corpo.

Ah, a Noite, esperma negro que esterca afetos sombrios
E o fogo-fátuo de minhas iluminações!
Ah, Noite, não és o lado obscuro da laranja,
És o gêmeo informe com cara de Lua, és inteiriça!

É o estar sempre, réu, entronizado na cadeira elétrica das sensações presentes
Que me poupa de tantas saudades,
De tantas, instintivas, forçosas, inclinações naturais-artificiais à saudade
E quão pouco tenho sofrido saudades!

Ai, sou monstruosamente ébrio, alienado, solto de meus batimentos cardíecos e das manhas de meu Cérebro cheio de vícios!
Quão pouco tenho sofrido saudades...
Vil! Sou vil!...

Falecido pai, ah, General-Pietista, Jesuíta-Protestante que rabiscou meus primeiros rastejos na Mística!
Ah, Tu, Alma-louca, Débil onipotente nos descampados da Fé,
Tu, híbrido de João Batista e centurião romano,
Tu, Capitão de Infantaria, puritano de verde-oliva, Quaker hedonista
Que salivava o desejo puro e aromático sem o saber
E te penitenciavas ainda por sentir o centauro e o sátiro pululando em tuas partes baixas!

Pai, eu pouco tenho sentido saudades de Ti!

Mas que tributo podre seria esse gomo suculento de nostalgia?
Sou o Além-de-Ti, meu Pai!
Esqueci-Te para glorificar teus instintos em minha carne,
Em minhas partes baixas vibra teu sangue mistico-lascivo.
Pai, Ponte-Estreita, fio de cabelo por onde adestrei meus pés,
Sou Além-de-Ti, meu Pai!- Eis meu tributo.
Meus pés de sátiro estão livres de coturnos
E a hierarquia e a disciplina que transpiro é tão outra,
Tão secreta, tão marítima...
Sou eu, o Orfeu crístico, meu Pai;
A síntese, o beijo dos opostos,
A casa aérea de tantas coisas esquecidas,
O arqueólogo de mil olhos e de mil braços
Que lambeu as ruínas entulhadas por séculos
Eu, um Pedro, um Papa da Igreja que sou;
Boanerges, filho do trovão silencioso;
Apóstolo maldito, bastardo entre os filhos de Deus...
Estou lá, meu Pai, lá para onde correm as corças hereges,
Os alquimistas do próprio evangelho...
Estou lá, meu Pai, pisei em tua cabeça;
Meu violão deformou todas as tuas máximas,
Meu canto fez o Cristo saltar do crucifixo e servir vinho num copo de bar.
Foi tua voz em minhas costas, meu Pai,
Tua voz rouca perpassando os orifícios afinados de meu corpo
Que me despertou para ser o sátiro de Cristo.
Teus genes e tua escolástica me condenaram maravilhosamente à Heresia,
A ser uma pitonista de santas blasfêmias
E a aurora que regaste em mim despontou em meus olhos, e devorou meus meus olhos...
É com olhos de Homero que não reconheço esses dois mil anos de Cristianismo, de Império da Verdade...
Febril deliro, chagado da ferrugem desses séculos,
Monstro no lago do Silêncio, Leviatã urbano na sua mística privacidade habitada;

Livre, sou livre, livre quem sabe de mim!
Livre para blasfemar, tenho orgulho e coragem pra isso!
Tenho a fome bailarina na mesa farta do banquete;
Tenho a íntima distância do Criador;
Tenho a íntima distância da Criação;
E sou o Distante distante...
E sei de cor o deserto e mar.

A Anêmona-aberração que só é diáspora de sentidos
Quando farta, e se encurva sobre si canibalesca, comendo os últimos vestígio do pouso de Deus no corpo.
E quando a exuberância enxameia:
Vê como as ruas são rizoma de fios condutores das descargas e dores,
De gozos, de febres, de transes!
Vê como as casas todas se enxertam em sua carne!
Vê que essa Anêmona-louca é ela mesma o tempo sagrado, o Sábado onde Deus repousa
Curvado sobre si, o Si-mundo.

E nessa hora noturna,
Encubado pelo hálito da Baleia de cimento,
A Anêmona-urbana mastiga as próprias vísceras....