Eles vomitam cachorros
tagarelando sobre suas esposas
Eles escarram nos
rostos de suas mulheres ausentes, e esmurram-nas sem dó
Os meus ouvidos
impacientes, eles não cansam de espetar com suas lamentações
Suas queixas contra
aquelas que juraram amor,
Façanhas desesperadas
e espetaculares fizeram para arrastá-las ao quadriculado de uma casa
De uma cama, de uma
alma de esposa, de uma função amorosa...
E agora vomitam
cachorros tagarelando contra a sorte que costuraram com os próprios
ossos e carne.
E em todo o odioso que
me falam
Eu só vejo ardente
amor a essas mulheres
Eu só vejo amargo
rancor à própria covardia
Cospem como se pudessem
afogar com saliva raivosa
A vidinha desgraçada
que guerreiam para engendrar
Com a lascívia de quem
cunha uma moeda de ouro.
Eles escarram nos
rostos ausentes de suas mulheres
Difamando a secreção
de seus próprios espíritos frouxos.
Amam-nas em seus
desesperos mais másculos!
Amam-nas como a metade
de seus corpos!
Amam-nas como seu Deus!
Amam como elas sabem
subjugá-los
E todas as suas
fragilidades e infatibilidades fingidas
Que os fazem sentir-se
tão homens, tão masculinos, tão grandes
São eles tão macios,
mesmo esbravejando, entre os dedos de suas fêmeas
Como viver sem seu Deus
e seu templo?
Como viver sem a doença
que sofisticou com tanta perseverança
E que agora é carne de
sua carne, ossos de seus ossos?
Chega a delirar à
beira do abismo donde voltam correndo amedrontados ao calor do útero
Como viver sem ela? (E
chega-se a viver com ela?)
Mas será preciso
aliviar-se, vomitar cachorros loucos
Babar enraivecido e
lancetar-se...
É com tanto amor que
eles estraçalham suas esposas ausentes!
É com tanta paixão
que a menosprezam, que catalogam seus vícios e zombam de suas
virtudes!
É com tanto ódio pelo
fracasso fatal da humanidade típica de homem casado
Com sua paixão a
conta-gotas
Com sua vitalidade de
cabo de vassoura
Com a maneirazinha de
viver mais vil e fraca que se tornou a ortodoxia imblasfemável
Não podem mais encaram
a selva
Porque já não a
enxergam
Uma hora trocarão a
sacerdotisa do templo
Achando uma mais bela,
nova, mais ardente
Mil vezes mais
maliciosa
Que aniquile de vez
essas faíscas de vida que tanto incomodam
Que destrua de vez esse
desconfortável orgulho
Que realize a lobotomia
completa
Para que um feliz zumbi
Beije carinhosamente a
boca da única vida que ama,
E que merece.
Dante Alligator