I
Na lua vazada que carrego entre dedos
A noite se reflete fértil
Essa noite que seria estéril
Entre lençóis;
Que seria infértil arrastando lençóis...
Um limbo imbecil me prenderia
Impedindo-me de deslizar ao saco negro, o sono
Um limbo imbecil guardaria
Minha alma congelada no seu oco
O cadáver cambalearia pelos cômodos
Sonhando ser corpo
Semi-sonhando, delirando cansadamente...
O cérebro pesando no crânio
Sem atender aos murros que punhos entediados desferem loucos
Como se quisessem acertar a glândula pineal
E talvez esmagá-la de vez!
Eu me entronizaria no tédio
Sentado à escrivaninha zombeteira
Apanharia algum livro companheiro, que estaria tão obtuso quanto uma virgem
E sofreria a tonelada de pálpebras, em sua mornidão indecisa
Em sua tortura chinesa;
E sofreria o escárnio de um romance de Dostoiévski, ou de um Espinosa,
Ou dessa história em quadrinho comprada ontem num sebo conhecido
Coisas em que tanto desejo entrar
Mas que agora zombam do meu pênis amolecido
E se fecham em sombras, esmagadas pela tonelada de pálpebras
Então, eu me ergueria subitamente, como que para espantar um demônio recostado no ombro
Apanharia papéis brancos e lápis
Tentaria recordar aquela ideia que me queimava há pouco
E frustrado veria que ela ficou para trás
Batendo como mariposa em lâmpada
Na alma sepultada na neve do limbo
O inferno é o encontro da insônia com a esterilidade
É um inferno de neve
Aceso pelas faíscas desse choque:
Insonia & Esterilidade
Os inventores do Inferno, do Hades
Certamente foram torturados durante longas noites por essas insônia estéreis.
Originalmente, o inferno é o mito
Nascido dessas almas inventivas
Aterrorizadas por essa morte-vida
Por essas trevas castradoras, que os tornavam
Em eunucos, em impotentes, em repugnantes medíocres infames
Como qualquer um desses reles
Privados da alquimia do tédio
Ignorantes das odisseias de madrugadas solitárias,
Os que desconhecem o coração e a vagina da Noite
E que viram de costas para ela e dormem.
São empobrecedores da Noite! Lá sabem eles que a Noite deve ser povoada!
Mas eis aqui entre dedos
A lua vazada, o círculo do poder que se pode levar nas mãos
A louça cheia de sangue negro artificial!
Queimo minha boca nesse amargo
E ganho um empréstimo de alma;
Cheiro esse volátil sombrio
E broto oráculos, broto gárgulas...
Um catalisador, uma transfusão, matéria negra
Galada por minha fala
Por meu falo.
E as pálpebras já são minhas!
E, que o diabo carregue o limbo e a alma congelada!
O esperma negro me desce pela língua, quente, perfumado...
E sou fecundado, e sou fecundo...
Trilharei infernos sem medo
E mais um gole na xícara amiga
E tenho as chaves do inferno
O tédio me brilhará como diamante
Os livros me serão pontes
Aos papéis brancos de neve, ordenarei a primavera!
II
Devo ao café o poder ser outro
Devo a esse detalhe toda minha simples complexidade
Há universos que seriam desertos
Não irrigados por esse rio negro.
Se o Egito é uma dádiva do Nilo
Quanto da história da arte não é dádiva do café?
Gozo em ser esse corpo fraco
Carente até
Dessas alianças de poder;
Gozo em ser esse corpo impuro
Viciado até
Nessas substâncias de poder;
Gozo em saber que na minha pele e em minhas vísceras
Vivem milhões de outros seres
E que talvez eu deva a eles o ainda poder viver e escrever!
Gozo em saber que o meu cérebro e meus rins dependem da amizade das bactérias!
Gozo em ser um corpo imoral por natureza
Que não pode ser de si
Que não pode se bastar
Que não pode ser puro
Se limpo, não brota – qual planta sem estrume.
Que não pode ser propriedade do “eu”, por pertencer as orgias da Terra
Drogado até,
Ontologicamente drogado, cosmofágico, ontofágico...
Se individualizado, imutável
Se depurado, idêntico
Se dissecado, pétrico...
O café é o motor de minha humanidade
O café é o combustível de minha inumanidade!
O café é minha ponte ao cosmo
O atualizador de minha potência mais libertina
Mais um gole na xícara amiga
E todos os delírios da humanidade de ser mais mais que humano
Serão meus!
Mais um gole na lua vazada
E serei um deus!
III
Simples silogismo da inocência:
Se este corpo amou o café
E fez dele um olho,
E fez dele asas,
E fez dele farmácia
E, certamente, há outro corpo tal como este
Com seus próprios amores
Com sua própria potência – comportando suas próprias forças e fraquezas
Logo, saudavelmente, não escolherá o café
Como olho,
Como asas,
Como farmácia,
Posto que o café é todas essas coisa apenas neste corpo.
Com que cetro de Deus
Poderá este corpo
Condenar aquele outro corpo
Por não ter escolhido o café
- não que exatamente tenha escolhido, mas seguido a vontade -
Antes, amou uma xícara cheia de outra coisa
Ou não exatamente uma xícara
Ou não exatamente a lua
Ou não exatamente a noite
Ou não exatamente a insônia?
(Este corpo tem seus amores
Aqueles corpos podem ter seus próprios amores
Logo, não há como condená-los se não amam
O que este corpo chama de amores)
Haja fôlego...
ResponderExcluirMuito bom
:)
Quem é vc?...
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