terça-feira, 6 de março de 2012

AS VIRTUDES DO SAUDÁVEL


O Saudável, portador da grande-saúde, aquele que é de fato uma vida-que-vigou, ao ser lançado no caos, aprende com ele um monismo bem-aventurado, como Nietzsche, que nos anos que lutou contra o seu “espinho na carne”, sua doença, aprendeu a deixar de ser pessimista – o contra-golpe de seus instintos mais fortes o ensinaram o supremo remédio, o monismo da multiplicidade. Assim saboreou, por urgente necessidade, o Deus de Spinoza, a existência como pura e plural positividade; chamou esse monismo de vontade de poder; aprendeu a ver o mundo como a multiplicidade da vontade de poder, superando seu mestre Schopenhauer. E assim, decretou seu grande Amém, o Sim feliz à doce vida e a sua doce terribilidade, extraindo do sofrimento todo o mel, toda alegria, todos os conceitos que ele pôde dar. O supremo remédio: o mundo como pura e múltipla positividade, contendo em si o horror, a dor, o terrível, assim como o gozo e a beleza; eis luxo dos espíritos trágicos, alados pela coragem para alcançar o pico desse segredo. Já o decadente, o de instintos enfermos, quando mergulha no caos, é possuído pela virulência dos impulsos que engendram a dialética e os dualismos. Ressentidos contra a dureza da Vida, eles se tornam os diabolos do mundo, buscando no transcendente alguma consolação para suas agonias; Falta, Culpa, Má-consciência, calúnia ao Desejo são o legado desses espíritos à Terra. Tal como Schopenhauer que dividiu o mundo em vontade e representação, e quis a representação como a consolação que acalma, e alivia a desgraça que é ser vontade, e assim, a arte , o pensamento seriam aquela coisa broxa, a compensação confortadora pela miséria que é existir! Graças àquele bigodudo atrevido e seus martelos, já sabemos de cor que o Cristianismo e o Platonismo são os acúmulos e os engenhos mais geniais desses instintos enfermos. Mas quem tem os olhos bons e o corpo iluminado para discernir as atuais manifestações dos instintos escravos e degenerados? O faro e o tato adestrados e sensíveis para sentir os contemporâneos sintomas da decadência, de ódio ao caos, de sistematização e estruturação do pavor a qualquer turbulência que ponha em cheque a quietude, o sossego – a felicidade! O olhar afiado para advinha onde começas as grande depravações e extravios... Eis as virtudes necessárias; a Virtu de um Saudável - Com tudo que possuis, adquire-as! Bater as asas contra o corpo para acordar a si mesmo, como um galo que se prepara para o canto ao sentir os raios da aurora, ou, melhor não dar um só pio! Chega de galos sonâmbulos! - é melhor ser uma galinha silenciosa chocando os próprios ovos.

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